31 de agosto de 2016

Komorebi

I

se precisas de humanizar a árvore

para além de não entender grande coisa da árvore
não saberás de ti próprio outro tanto

recolhe a língua ao mais remoto dos aposentos
cala o espelho dentro dos olhos

não vês a árvore arborizando-te,
pois não?

não lhe cosas a tua sombra,
nem lhe entrelaces teus membros.
limita-te a comentar da árvore tal como a vês
sendo

do privilégio de olhar coada a luz branca do sol
através da sua folhagem como luz branca
do sol coada através da sua folhagem

informação pura, existente, sem 
filtros, qualquer tensão e intenção

Já é muito

É tudo

II


olhar a luz leitosa do sol filtrada pela folhagem das árvores,
com o primeiro desentendimento da criança

mas para quê fazer esse caminho individual de volta?
se o regresso já existe e respira somos nós
um milagre não é milagre 
se se repetir sempre 

Apresenta-te como um novo dia se apresentando como
um novo desentendimento
que aprendes com o
heróico esforço da criança

percebendo que o mundo tem um tamanho de milagres
inversamente proporcional
ao nosso físico acabar

isso é factual                                                  mas não se justifica                                           a  vida tem sentido por ser enigma                                                   
III

porém, agora, cala-te, 
pondo todo teu ser sobre 
esse quotidiano de luz do sol filtrada pela 
folhagem das árvores

és jovem ainda, 
perfarás em breve 35, 
terás tempo para o azedume ressentido da velhice



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