8 de abril de 2017

UZMAL

 Meu tempo de escrita avança através de tempos de textos antigos, como o homem Maia subiria até ao cimo a inclinação deste templo - cada degrau forçando-o a um rosto baixo e a uma coluna torcida para baixo, em sinal subtil de respeito por algo maior do que o maior dos maiores algos, os pés calejados pisando cinzas sacrificiais de bibliografias passivas, outrora vivas como ele. A caminhada decorrendo e concretizando-se no mais denso e simétrico silêncio, como se os mundos de indivíduo e objecto estivessem interligados por um tronco comum, ausente quando alguém estranho e interdito à cena o tenta ver, copa e raiz na mesma árvore unindo invertidamente as dimensões várias do ser e não-ser. Acho que, ao contrário do que exortava certo poeta, não precisas de mudar a tua vida, mas sim admirá-la e amá-la, que o gesto já será um acontecimento transformador. Como disse ao filho Arsenii Tarkovsky- depois de ter visto O Espelho- O que tu fazes não são filmes-, não banalizes a unicidade do poema falando de ti próprio. Lavra na página eléctrica as mil auroras que viste nascer ou os segundos quase intérminos em que o mesmo rosto amado-amante te fitou. Aposto que não haverá uma vez gémea da outra. Honra os teus olhos.

22 de março de 2017

Lugar Luz

Esse ténue sorriso que esboças
frouxo quase sem músculo
à beira da falência dos sentidos
e da imaginação
é na verdade um reflexo
delicado de tua expressão e linguagem 
que num paradoxo astronómico 
embora à semelhança das estrelas
chegue até nós num esplendor sem alma 
nem fogo, lá onde morreram, explodiram

[num lugar de só luz. 
 

8 de março de 2017

O poema nasce do homem para o homem
combate quem quer libertar

Talvez eu mesmo

14 de fevereiro de 2017

Quartetos da boa ignorância

Se escolheste não saber
Certo é também teu caminho
Afinal, que sábio pôde alguma vez dizer
- Eu sei que isto é isto e aquilo aquilo?

Se ignora para que lado decide o vento
Que deus teceu o silêncio e o riso e com que fios
Quem lhe conferiu e porquê
o atributo e epíteto?

Nem mesmo a mim ofereças
como um idólatra os teus ouvidos
pois não sou ou não deveria ser
teu ídolo

30 de janeiro de 2017

o mundo é o recém-nascido que berra
de medo e incompreensão no meio
do escuro do quarto

o poeta é o pai estremunhado que a
custo e contragosto se levanta
para lhe apaziguar corpo e sono

pode a tarefa ser-te penosa
parecer uma tortura sem nome
mas é forçoso que o faças
e sabê-lo-ás mais tarde
sem explicação
quão prazerosa também
o foi

14 de novembro de 2016

De Senectude

Envelhecer será saber rasurar o álcool da emoção, ou doseá-lo, tesourar o corpo à altura dos limites do que este almeja, medida justa. Abrir o palato com o primeiro golo e ficar-se pelo primeiro ou segundo ou terceiro copo, fogueira suficiente para identificar a semi-claridade de nossos rostos na mata da memória, e relatar com apaziguada voz libações mais acesas, histórias de fantasmas- como éramos tolos ou tristes à época, por pensarmos que para merecermos o reconhecimento dos espelhos e a electricidade dos corpos, o sangue teria de levantar fervura e falarmos como se corrêssemos com uma nudez de altos berros pela noite cheia das ruas. E conquanto, de mão experimentada, em repouso no pó de capa dura de um sebo dos sortilégios, muito comedidamente, trabalhar o coração, insistir em ousar perturbar o universo, pregar-lhe uma partida, tocando-lhe à campainha e fugir antes que  a outra venha à porta, para nosso espanto, nos mande entrar, como se já fôssemos da casa.

2 de novembro de 2016

Sublimação

Num dia de sol parcialmente encoberto, fotografaste nuvens justapostas ao teu rosto no retrovisor do lado direito, mas eram tuas feições que passavam até se esfumarem fiapos brancos da negra moldura, não esses trôpegos paquidermes gigantes cheios de vapor de água contida. Porém, o carro não estava em marcha, e tu, confessas, ainda estás para entender o sentido oculto da metáfora, porque vives aterrorizado pela eficácia significante da sombra do
que palpitas.