15 de novembro de 2017

Desertos

Tal como o oficial de Buzzati
trato o amor como uma ameaça invasora
que nunca chega
Ele também
Cada um é como um animal diferente
ciente das consequências do encontro
esperando na luz ou na escuridão

Abrindo ostras

Não é como abrir um livro a janela
como perante a mulher
desejada
Temos de ser decididos
Quase me mato
Sabe a mar o risco

6 de novembro de 2017

MORTE AO PIANO

A maternidade onde a luz o reivindicou para si mesma sumiu, 
no seu lugar, agora, outro edifício lança distinta sombra, tão estranho 
como um dente d'ouro em branco sorriso e hálito são, pese embora tudo se apresente 
estranhamente familiar, como a escola e o caminho para casa, 
do outro lado da estrada. 
O silêncio ainda negoceia presença com o sereno meneio das árvores e os cânticos dos pássaros, 
os habitantes e os passantes mais casuais parecem conservar ainda, 
nos gestos, nas palavras, a mesma lenta velocidade que caracterizava e convertia o bairro num lugar 
tão tranquilo e aprazível, sem, pasme-se, as aparições e a ameaça da polícia: podia-se morrer aqui, mas não foi obviamente o lugar onde me fiz homem. 
Ninguém sofre mirando uma pintura naïf. Ninguém cresce onde é feliz. 
Depois vieram os gritos, os punhos, os desamores, as decepções, os amuos, etc e os mais vários estados do ânimo, tudo aquilo que lastimo e me justifica aqui , a bíblia da minha biografia, a letra que mata e o espírito que a vivifica, 
a vontade de resgatar o mundo de si próprio ou condená-lo a um contínuo Apocalipse, as lágrimas nas coisas, 
as mais escusadas metáforas, citações e envios, os tropos, a auto-comiseração, a linguagem 
com o rei nu, enfim, o anjo de minha história com as penas das asas próprias saindo da boca, 
belo e ridículo em triunfante auto-extermínio, tudo aquilo que vai perfazendo 
uma muito idiossincrática urgência de melancolia.

4 de outubro de 2017

É conciso e claro teu coração

as mãos comem o pão
não um símbolo

nenhuma das tuas palavras
transporta uma carga enigmática

perdoa aos poetas

a sua simplicidade construída

25 de agosto de 2017

MINIMA MORALIA

Quando ainda não souberes por que paira sobre tuas pétalas e corola, ameaçadora a abelha da experiência, querido, sentar-te-ei na flor da tua idade e ensinar-te-ei o medo, a saudade, a desilusão, a mentira, o rancor, o desalento, como apreciar e rir dessas piadas irónicas, experimentarás também o prurido doloroso de um amigo ou amante que não te responde, de como um poema é um abrigo das más estações, grandes robustas folhas de bananeira quando te parece que está sempre frio e a chover, e a música não é mais do que o vento que sacode a água que nelas se acumulou. Cuidarei igualmente para que aprendas cedo, e quanto mais cedo melhor, a munir-te das melhores armas, as mais duradouras e eficazes - a vida é uma longa espada e combatê-la, para que saibas, é exercício escusado e inglório, mas fá-lo-ás, porque crerás que a vontade que dominas e comandas é a do sonho - serás a criança de Whitman que perguntou "O que é a erva?", esperando que esta lhe retruca "O que é a criança?". Concluirás depois que Deus poderá saber karaté, mas o Diabo esconde o gume dos traidores entre o cinturão e o quimono. Haverá até um momento, como Hölderlin, que não entenderás as palavras dos homens, e procurarás a salvação que te foge no sexo desenfreado de risco com corpos nus vários, nos deuses dos livros, nas drogas. Não obstante, não te angusties, sorri, porque entre as horas violentas, haverá intervalos de cansaço e alegria( saberás dosear o riso e o tino), com sorte, de amor, com mais sorte ainda, amor próprio. Amarás as mulheres, ainda que elas queiram não raro que rasgues os pulsos com os caninos. Darás o devido valor à tua mãe, segundos antes de fugir de casa e segundos depois de lhe teres teres dito que não pediste para vir ao mundo e a odeias até ao infinito. E resumiremos a matéria dada quando o sol subir, dia após dia, com entusiasmo, rigor e disciplina. Para quando chegares enfim aos anos que agora te escrevem, conheceres o peso de um lenço lento num cais vazio acenando ao silêncio e nevoeiro, uma desesperada missiva para o horizonte e guardares na gaveta os teus tolos e esperançosos manuscritos para sempre, furiosos gatafunhos ensopados de sede de viver, letras que esborrataste com um secador, quando depois de as afogares, tentaste fazê-las regressar pristinas à tona luminosa dos vivos. Farei tudo para te tornares como eu e os demais e não quem és, querer e acto de que não obterei nem nunca quererei perdão, mas pode ser que antes de eu dar por terminados os trabalhos dessa ruína ruim, lances mão a Nietzsche e a Freud, tatues seus e outros nomes rebeldes debaixo da língua ou na fronte, construas para ti uma bela morte, declares com som e fúria na vidraça do Metro a golpe de butterfly, líder de um gangue de espíritos livres, que Deus morreu e ainda vás a tempo de matar o pai.

10 de maio de 2017

Impaciente busquei
ver claro no enigma das letras antigas,
cada vez mais fundo nesse túnel,
beber do conhecimento dos mortos
e velhos da união

Hoje sei que o conhecimento é uma luz
que se divide em duas meias luzes
iguais que entram de imediato em
conflito entre si

Preferível o bom senso
nada falar para poder tudo ouvir
de quem amamos

Única saúde e sonho

Que abracemos antes os homens
dentro dos livros

Antes que todas as letras,
das novíssimas às das tabuinhas,
não passem de cataratas
de cinza tombando sem ruído
e sem testemunha numa região longínqua
da memória colectiva