4 de janeiro de 2018

Bioacústica


Soube há pouco que as árvores também gritam de dor. Um grito tímido que se confunde com o rumorejar quase surdo da resina. Como tu, ignoro como tantos outros segredos, a vida secreta das plantas. Depois, esse dado associou-se livremente a outro esclarecendo-me que os ecossistemas se encontram cada vez mais calados, como é óbvio, devido à forma como os homens influenciam e agem sobre a música do meio que invadem e colonizam. Os ameríndios norte-americanos não tinham uma palavra para Natureza, pois nunca se divorciaram do mundo das canções da terra, coro de espíritos. Creio que nunca abracei uma árvore, tão-pouco segredei algo absurdo ao bonsai doente do escritório ou segurei entre a indiferença dos dedos as petúnias da cozinha, mas gostaria que o fogo das minhas imagens pudesse combater os archotes bárbaros do progresso, que por uma vez não cantasse o silêncio de um fim que os primeiros versos deste poema qualquer poema enunciam, a morte, sempre a morte imiscuindo-se nas folhas caídas do que não dizemos, com as suas cinzas.

Conhece-te a ti mesmo


Esta frase pode ler-se inscrita na entrada do Templo de Delfos, na Grécia, mas devemos mesmo acreditar nela como os antigos outrora acreditaram na existência dos deuses? Certo é, dizem-nos os estudantes dos astros, o universo inobservável ser muito mais vasto que aquele que nossos olhos poderão algum dia apreender. Mesmo este planeta detém mistérios que nem a mais iluminada e velha existência poderá em algum momento claro desvendar. Muito bem, deixemos o telescópio, troquemos a escala do olhar e partamos do ínfimo. O que sabes sobre a flor?, perguntar-te-ão os naturalistas. Ou troquemos umas ideias sobre o silêncio, exigirão os místicos. Tens alguma ideia sobre o mundo das ideias, troçarão os cientistas da mente. Já os políticos falarão sem que deles saia nenhum som. Os poetas evidentemente calar-se-ão por convicção. E por aí fora. Escrever é um longo estágio de ignorância. Quanto menos souberes, melhor

FINISTERRA



No fundo sempre soube da existência do lugar, mitológico, mítico, onírico, somente ignorava que se apresentaria à minha franzida contemplação em forma de uma pessoa que na verdade é tanto acto fisiológico como sereno sacramento, besta do sagrado. O lugar é este, onde toda a linguagem, e, por conseguinte, todos os poemas, vêm morrer, mas em sossego, como se se houvessem cumprido, cumprindo, isto é, reconciliando o mundo da acção e o mundo da ideia = a mão é o espírito, poderia escrever-se. Mas dizia eu, onde a linguagem finda, o silêncio principia. Não é esse o sonho utópico dos poetas? O semovente e fugidio alvo sempre sob a sua mira? O poema que os faça depor a caneta e finalmente dormir? O poema que todos os outros elida? O verso apocalíptico? O fogo que extinguirá a sua chama no meio do deserto do real? Onde a linguagem já não é - Eis uma definição do Amor. Neste espaço até o ar se emprenha de concretude, a concretude das certezas, isto é, as respostas que alijam do homem o desespero de nunca saber nada através do estudo e serviço da palavra. Chão que não é território nem mapa. Fim da terra, onde para lá do extremo da falésia mais protuberante, céu e mar são inconsutéis, como partes diferentes-iguais do mesmo vestido de noite que apazigua e faz sonhar a consciência. Como eu e tu, quando os nossos olhares parecem confundir-se, sempre à mesma altura na linha do horizonte do que fixam. É bom que se confundam, porque quero eu lá empiricamente saber se o mundo é mesmo redondo, nem poderia fazê-lo, se o desejasse, agora que, como Édipo, furei os olhos, rei satisfeito de toda a sua ignorância.

15 de novembro de 2017

Desertos

Tal como o oficial de Dino Buzzati
trato o amor como uma ameaça invasora
que nunca chega
Ele também
Cada um é como um animal distinto
esperando na luz ou nas sombras
cientes das consequências do encontro

Abrindo ostras

Não é como abrir um livro a janela
como perante a mulher
desejada
Temos de ser decididos
Quase me mato
Sabe a mar o risco

6 de novembro de 2017

MORTE AO PIANO

A maternidade onde a luz o reivindicou para si mesma sumiu, 
no seu lugar, agora, outro edifício lança distinta sombra, tão estranho 
como um dente d'ouro em branco sorriso e hálito são, pese embora tudo se apresente 
estranhamente familiar, como a escola e o caminho para casa, 
do outro lado da estrada. 
O silêncio ainda negoceia presença com o sereno meneio das árvores e os cânticos dos pássaros, 
os habitantes e os passantes mais casuais parecem conservar ainda, 
nos gestos, nas palavras, a mesma lenta velocidade que caracterizava e convertia o bairro num lugar 
tão tranquilo e aprazível, sem, pasme-se, as aparições e a ameaça da polícia: podia-se morrer aqui, mas não foi obviamente o lugar onde me fiz homem. 
Ninguém sofre mirando uma pintura naïf. Ninguém cresce onde é feliz. 
Depois vieram os gritos, os punhos, os desamores, as decepções, os amuos, etc e os mais vários estados do ânimo, tudo aquilo que lastimo e me justifica aqui , a bíblia da minha biografia, a letra que mata e o espírito que a vivifica, 
a vontade de resgatar o mundo de si próprio ou condená-lo a um contínuo Apocalipse, as lágrimas nas coisas, 
as mais escusadas metáforas, citações e envios, os tropos, a auto-comiseração, a linguagem 
com o rei nu, enfim, o anjo de minha história com as penas das asas próprias saindo da boca, 
belo e ridículo em triunfante auto-extermínio, tudo aquilo que vai perfazendo 
uma muito idiossincrática urgência de melancolia.