24 de maio de 2018

Verão sobre uma fotografia de Rinko Kawauchi

Disponho no prato azul-céu
uma fatia de melancia, fruto que recebeu o favor do sol
Com a pinça do silêncio,
Entre polegar e indicador,
a pouco e pouco,
uma a uma,
puxo suas sementes,
Como se removesse
lágrimas de um rosto.
E como como
se sorrisse
de ser triste

22 de maio de 2018

Perplexidade e Gato

Quem és tu, gato?
vais vens vais

gato de ser gato.
Vestígio de viagem ao fim da noite em espontânea combustão
Agente provocador do breu mais mudo e silêncio mais sinuoso
Declaração de indiferença impávida e serena
Talvez medida do mistério que medra quando em mim
me deixo dormir sem dar por isso.
De pêlo plúmbeo que a lua faz prata,
As horas são narcolépticas
nos teus olhos cleptomaníacos,
são a consciência da ausência
livre de porquês.

21 de maio de 2018

NEKYIA

Ergue-se o fumo do cigarro ideado enquanto cai a noite. Eis-nos conversando uma vez mais com os mortos, lavrando o verso em idade madura, recuperando a relha de um poema de idioma antigo, procurando conselhos e direcções como os de Tirésias pelo herói, não sabendo para onde ir, quem ser, uma mão ensombrando a outra, confundidas, ambas encobrindo, acoitando a vergonha e inépcia do rosto, sinédoque do corpo, museu da traição, mas nós estamos vivos, e não nos demoramos muito nas moradas inferiores, embora sem estrela nem vento, fugindo para o futuro, não desarmamos na aprendizagem de morrer, como fez questão Sócrates com a sua ária para flauta, enquanto lhe estavam a preparar a cicuta.

27 de abril de 2018

Quasar

Desengana-te, aspirante a astronauta, não há qualquer fim na literatura, essa arte e indústria sem préstimo nem prémio. O que pensas serem estrelas resplendendo são na verdade um diadema de numerosos satélites desactivados sem vivalma ao comando, como qualquer esforço tecnológico, frustrantes tentativas de afrontar os divinos e usurpar o seu trono, vislumbres de sísifo empurrando a pedra desesperada da solidão irremediável e universal do homem para o silêncio profundo das trevas siderais, estreitando seus espinhos sobre a consciência do planeta, a condição da espécie. Servimo-nos de um poema, como nos servimos desse lugar, como nos servimos dos oceanos, como nos servimos de todas as coisas, como nos servimos uns dos outros. Distante depósito de lixo, cósmico, mas lixo, impossível de reciclar pela ecologia do espírito mais alumiante sobre o destino da raça, a herança dos filhos, a última palavra do futuro que mão funesta lavrará em testamento, o prego derradeiro no caixão do projecto, segundo Pascal, o mais sangrento.

23 de abril de 2018

Nigredo

Entras depressa na tua noite escura. Fechas a porta sobre o terramoto surdo dos dias em que nada acontece, os dias que não aconteceram, como a imagem sem som de um corpo quieto conduzido pelo tapete rolante do seu sossego e inércia, entregando-se ao labor orante ao deus dúbio do silêncio da escrita, os gestos secos e precisos de um ofício, em ciclos regulares recortando e detalhando um pequeno espaço vazio em que te empenhas com brio a bloquear todos os ruídos que te sugiram outras vidas para lá das paredes e janelas de um quarto fechado que se torna enorme na sua abstração de conceito de quarto, olhando a página branca de tua memória e imaginário como Galileu remexeria no negro do espaço sideral em busca da existência ou movimento do astro que fundamentaria o aparecimento de uma nova teoria que explicaria de modo definitivo a existência e o comportamento do universo e negaria todas as tuas mortes das noites anteriores( das quais te levantas todas as manhãs às oito), a própria ideia e história da morte, mas és vencido pela exaustão que o esforço te exige mesmo antes de começares. No entanto, e isto é uma regra que se aplica a todos, na mesma situação ou que gostariam de estar, não dormirás um sono sem sonhos. Como se descobrem variações de detalhes na circularidade da rotina, à imagem do planeta, és uma esfera imperfeita, podes sempre tornar a tentar, renovar o fracasso na noite seguinte.

Anjo Pessoal


Da criança ladina ou do rapaz estranho, nem a sombra, o tempo, com a mais focada indiferença, sem se condoer com peripécias e paixões, nem suar perante e durante a tarefa, trabalha meu rosto, martelo, cinzel, escopro, a vida é breve, mas é lento seu sopro, desfigura, configura e transfigura um desalinho e arrumo de linhas e traços ao ritmo de um dolente dedilhado de guitarra, para que enfim no instante exterminador diga, antes que no corpo se apague a luz da memória de si próprio, nuvem no espelho, a identidade : amálgama aleatória de contornos e formas, ó artífice de ânsias e angústias, que na pedra viu um homem.

3 de abril de 2018

MYSTERIUM

Scriabin, o visionário russo de natureza inquieta, leitor de Schopenhauer e Nietzsche, desejou que sua obra-prima trouxesse o Fim dos Tempos, o Dia do Juízo e Castigo, era sua grande empresa, erguer-se até recobrir com a sombra monstruosa das mãos todas as nesgas e escaninhos das alturas e abismos, devorador dos mundos, profundamente enlevado, como que dominado de um transe religioso,  da inteligência veemente do delírio, deixando soltar os sons universais que seduziriam tudo quanto há, com a sua loucura cataclísmica de sonho febril. Morreu ao longo da tentativa, por causa de uma borbulha mesquinha. Porém, se hoje pudéssemos ouvir a sinfonia de todos os encerramentos, retumbando nos créditos finais do filme cósmico, esta, quase apostaria, nunca soaria tanto a um princípio, como na noite de Natal em que nasceu ou na estrofe que abre as Metamorfoses, de Ovídio, uma massa densa e escura, sem forma e sem nome, reunindo numa só coisa todas, em discórdia e conflito entre si, até o deus compositor apartar terra e céu, e os nomear, de seguida em rápida sucessão arrumando e baptizando tudo o resto . A música, como todas as expressões da criação, aprendeu da morte a ironia, e escarnece, como as palavras, do poeta, de quem a instrumentaliza.