21 de maio de 2018

NEKYIA

Ergue-se o fumo do cigarro ideado enquanto cai a noite. Eis-nos conversando uma vez mais com os mortos, lavrando o verso em idade madura, recuperando a relha de um poema de idioma antigo, procurando conselhos e direcções como os de Tirésias pelo herói, não sabendo para onde ir, quem ser, uma mão ensombrando a outra, confundidas, ambas encobrindo, acoitando a vergonha e inépcia do rosto, sinédoque do corpo, museu da traição, mas nós estamos vivos, e não nos demoramos muito nas moradas inferiores, embora sem estrela nem vento, fugindo para o futuro, não desarmamos na aprendizagem de morrer, como fez questão Sócrates com a sua ária para flauta, enquanto lhe estavam a preparar a cicuta.

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