5 de julho de 2018

Criado Mudo

É em silêncio indiferente mas rigoroso,
que me administra os venenos dos mais
copiosos e fumegantes festins, enquanto a sombra crespa
de um cão que passou há dois ou três capítulos a existir,
me rói a agitação ledora das canelas,
sem que me possa soltar ou mexer
(paralisia dos sonhos),
peço em namoro o diabo das ideias.
Em horas de míngua das tuas mãos miúdas
tocadas pelas minhas, entrego todos os
nervos e fibras à gula de mortos e antigos,
livros e livros, pão e vinho,
a idade é um canto difícil iluminado por um
candeeiro mortiço.
Porém, o tempo não se deixa enganar com postiços paraísos;
a literatura no fundo do estômago;
cresce a imagem de cãs caídas,
sobre o tapete do ilota dos delírios.
Rei cada vez mais redondo,
de amor vazio como Erisícton,
vi o desenho fechado,
de meu destino, espero ao menos
que meu corpo e ossos,
sugado por fim o tutano do silêncio,
saibam bem à minha própria
sôfrega saliva.

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