Quando ainda não souberes por que paira sobre tuas pétalas e corola, ameaçadora a abelha da experiência, querido, sentar-te-ei na flor da tua idade e ensinar-te-ei o medo, a saudade, a desilusão, a mentira, o rancor, o desalento, como apreciar e rir dessas piadas irónicas, experimentarás também o prurido doloroso de um amigo ou amante que não te responde, de como um poema é um abrigo das más estações, grandes robustas folhas de bananeira quando te parece que está sempre frio e a chover, e a música não é mais do que o vento que sacode a água que nelas se acumulou. Cuidarei igualmente para que aprendas cedo, e quanto mais cedo melhor, a munir-te das melhores armas, as mais duradouras e eficazes - a vida é uma longa espada e combatê-la, para que saibas, é exercício escusado e inglório, mas fá-lo-ás, porque crerás que a vontade que dominas e comandas é a do sonho - serás a criança de Whitman que perguntou "O que é a erva?", esperando que esta lhe retruca "O que é a criança?". Concluirás depois que Deus poderá saber karaté, mas o Diabo esconde o gume dos traidores entre o cinturão e o quimono. Haverá até um momento, como Hölderlin, que não entenderás as palavras dos homens, e procurarás a salvação que te foge no sexo desenfreado de risco com corpos nus vários, nos deuses dos livros, nas drogas. Não obstante, não te angusties, sorri, porque entre as horas violentas, haverá intervalos de cansaço e alegria( saberás dosear o riso e o tino), com sorte, de amor, com mais sorte ainda, amor próprio. Amarás as mulheres, ainda que elas queiram não raro que rasgues os pulsos com os caninos. Darás o devido valor à tua mãe, segundos antes de fugir de casa e segundos depois de lhe teres teres dito que não pediste para vir ao mundo e a odeias até ao infinito. E resumiremos a matéria dada quando o sol subir, dia após dia, com entusiasmo, rigor e disciplina. Para quando chegares enfim aos anos que agora te escrevem, conheceres o peso de um lenço lento num cais vazio acenando ao silêncio e nevoeiro, uma desesperada missiva para o horizonte e guardares na gaveta os teus tolos e esperançosos manuscritos para sempre, furiosos gatafunhos ensopados de sede de viver, letras que esborrataste com um secador, quando depois de as afogares, tentaste fazê-las regressar pristinas à tona luminosa dos vivos. Farei tudo para te tornares como eu e os demais e não quem és, querer e acto de que não obterei nem nunca quererei perdão, mas pode ser que antes de eu dar por terminados os trabalhos dessa ruína ruim, lances mão a Nietzsche e a Freud, tatues seus e outros nomes rebeldes debaixo da língua ou na fronte, construas para ti uma bela morte, declares com som e fúria na vidraça do Metro a golpe de butterfly, líder de um gangue de espíritos livres, que Deus morreu e ainda vás a tempo de matar o pai.
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