Sinto saudades da presença diáfana das palavras que testemunhávamos sair das nossas bocas- naturais como a água que corre num conto de yourcenar, pés balançando sobre a água golpeada, em círculos ampliados pela pedra do protagonista de meckert - e dos cigarros que fumávamos (uma ponta na outra acesa) esquecidos ou desinteressados da vontade de sexo que nos mostrou o quarto, a cama, onde, por noites únicas várias, pagámos para nos encontrarmos na ausência do mundo, na ausência de nós.
Como éramos felizes então mútuos na mentira de dias decorrendo sob o auspício de uma luz fugitiva, roubada ao tempo, mas por mais arredio e escorregadio que seja o corpo do delito não escapa para sempre e enfim se cruza com o castigo que o persegue.28 de abril de 2026
19 de abril de 2026
Fénix
Citando o pai-tirano de todos
Se eu quisesse, enlouquecia
Porque é que não quero,
questiono-me eu
Porque é que não queres,
indagueis-me vós
São as dívidas. É a dúvida.
Perdoa-me por regressar à inércia
como se fosse um superpoder.
Sou só um homem, frágil e temente —
stalker que volta uma e outra vez à Zona,
que exclama um porra para dentro,
que se vê fénix:
uma imagem de potência em pausa VHS,
cheia de morte e transformação,
na cepa torta, em tensão irresolvível.
18 de abril de 2026
Road Movie
Nunca distanciamos o nosso crime
suficientemente do mundo
para sermos considerados amantes
ambíguos a monte num road movie de Monte Hellman.
Há sempre um polícia por perto,
E já dizia o outro:
Tudo é polícia.
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