20 de outubro de 2026

Lobo Solitário

Sabes, um lobo solitário não tem a quem uivar, mas estar calado é, na verdade, o seu supremo ato de liberdade, não se perdendo nos ecos e imagens projetados sobre si

Ele merece mais o silêncio que todos os poetas

Mas um lobo solitário também mantém e cuida de relações saudáveis: tem amigos, vai visitar os pais ao fim de semana, ou telefona-lhes quando não pode, talvez tenha uma mulher amorosa com filhos lindos, ou amantes ocasionais que de quando em quando ama com tudo de si, mas o que corre dentro do seu sangue é tão inestimável que nunca deixa ninguém espreitar entreabrindo a cortina

Pode ser um cidadão banal, acima de qualquer suspeita, que paga os impostos, entrega tudo às Finanças a tempo, não deixa de votar, mesmo que em branco, mas que por dentro anseia pelo outro mundo do mundo natural, onde se sente em casa no coração da escuridão da floresta profunda, nos picos de montanha de cortar a respiração, nas vistas deslumbrantes, nas extensões vastas e vazias, no mar aberto e selvagem, nos céus claros e cada vez mais largos, tal como vêm no calendário que a empresa lhe oferece todos os Natais, pendurado na cozinha

Não é um cão, por isso morde a mão canibal que segura a trela da convenção e da rotina

Um lobo solitário é, por natureza, um sonhador

Sente-se quase invisível, pois no seu íntimo,

Já partiu

9 de junho de 2026


 

Contraditório para Ignatow

Por que não haveria de lavrar comentário sobre a visão da montanha como fosse a minha vida? O que viste de vaidade, instrumentalizando natureza sob o domínio da metáfora, afinal espelha dois reflexos de corpos em relação, não tão distintos entre si, que o engenho do poema põe em movimento comum, avizinhando-os na dobra difusa entre estranhamento e coração.