1 de maio de 2026
Petricor
- Adoro o cheiro a terra molhada depois da chuva.
- Petricor, avô, petricor.
- O quê?
- O nome desse cheiro.
-Ah! Belo nome! A tua avó também adora.
- Adorava, avô. A avó já não está entre nós.
- Claro que está, rapaz, claro que está.
Basta enganar o presente das palavras ou pedir-lhes que se conjuguem sempre no tempo de agora para qualquer coisa que nos seja querida mereça a nossa estima viva para sempre.
O tempo da palavra é o tempo dos anjos, logo um ofício de imortalidade - há outros, como o amor, mas adiante. A imaginação criativa desembaraça-se de noções de finitude. Em linguagem tudo se faz real, qualquer ar é
cristalizável, até a eternidade, sobretudo a eternidade. Não se morre na palavra, mesmo que o digamos ou leiamos numa página.
28 de abril de 2026
Cigarettes before
Sinto saudades da presença diáfana das palavras que testemunhávamos sair das nossas bocas- naturais como a água que corre num conto de yourcenar, pés balançando sobre a água golpeada, em círculos ampliados pela pedra do protagonista de meckert - e dos cigarros que fumávamos (uma ponta na outra acesa) esquecidos ou desinteressados da vontade de sexo que nos mostrou o quarto, a cama, onde, por noites únicas várias, pagámos para nos encontrarmos na ausência do mundo, na ausência de nós.
Como éramos felizes então mútuos na mentira de dias decorrendo sob o auspício de uma luz fugitiva, roubada ao tempo, mas por mais esquivo e escorregadio que seja o corpo do delito não escapa para sempre e enfim se cruza com o castigo que o persegue.19 de abril de 2026
Fénix
Citando o pai-tirano de todos
Se eu quisesse, enlouquecia
Porque é que não quero,
questiono-me eu
Porque é que não queres,
indagueis-me vós
São as dívidas. É a dúvida.
Perdoa-me por regressar à inércia
como se fosse um superpoder.
Sou só um homem, frágil e temente —
stalker que volta uma e outra vez à Zona,
que exclama um porra para dentro,
que se vê fénix:
uma imagem de potência em pausa VHS,
cheia de morte e transformação,
na cepa torta, em tensão irresolvível.