3 de novembro de 2026
20 de outubro de 2026
Lobo Solitário
Sabes, um lobo solitário não tem a quem uivar, mas estar calado é, na verdade, o seu supremo ato de liberdade, não se perdendo nos ecos e imagens projetados sobre si
Ele merece mais o silêncio que todos os poetas
Mas um lobo solitário também mantém e cuida de relações saudáveis: tem amigos, vai visitar os pais ao fim de semana, ou telefona-lhes quando não pode, talvez tenha uma mulher amorosa com filhos lindos, ou amantes ocasionais que de quando em quando ama com tudo de si, mas o que corre apressado dentro do sangue é tão inestimável que nunca deixa ninguém espreitar entreabrindo a cortina
Pode ser um cidadão banal, acima de qualquer suspeita, que paga os impostos, entrega tudo às Finanças a tempo, não deixa de votar, mesmo que em branco, mas que por dentro anseia por outro mundo, o sem-tempo do tempo do mundo natural, onde se sente em casa no coração musical da floresta profunda, nos picos de montanha de cortar o fôlego, nas vistas deslumbrantes, nas extensões vastas e vazias, no mar aberto e selvagem, nos céus claros e cada vez mais largos, tal como vêm no calendário que a empresa lhe oferece todos os Natais, pendurado na cozinha.
Não é um cão, por isso morde a mão canibal que segura a trela da convenção e da rotina
Um lobo solitário é, por natureza, um sonhador.
Sente-se quase invisível, pois no seu íntimo,
Já partiu.
9 de junho de 2026
Contraditório para Ignatow
Por que não haveria de lavrar comentário sobre a visão da montanha como fosse a minha vida? O que viste de vaidade, instrumentalizando natureza sob o domínio da metáfora, afinal espelha dois reflexos de corpos em relação, não tão distintos entre si, que o engenho do poema põe em movimento comum, avizinhando-os na dobra difusa entre estranhamento e coração.