30 de agosto de 2018
29 de agosto de 2018
27 de agosto de 2018
Campo Grande
no grande horto das crianças celestes giroflé giroflá
trocávamos rosas e risinhos que soavam a pianinhos
giroflé flé flá defrontávamo-nos com os primeiros sintomas
da existência enfática do amor e da amizade
doenças incuráveis, mortes de lume brando:
uma mão ajudava-nos a subir no escorrega,
outra a subir ao baloiço, outra ainda
a empoleirar-nos para chegarmos à torneira
do chafariz que jorrava a vida em estado líquido
fresco reanimador , um pé desbaratava o penalty decisivo,
soubemos cedo apreciar o sabor da derrota
outro pé pisava a casa de um caracol alegórico,
soubemos ainda mais cedo acarinhar a pancada
de um verso surdo e seco,
corríamos afogueados esquivos da bola
o mata era o nosso jogo predilecto
gozávamos com pedras e cuspo os amoladores,
os engraxadores e os cauteleiros mancos
precoces suspeitámos de quem nos limpava, vendia,
e consertava a sorte, como se não soubéssemos por nós fazê-lo
vieram as lições do infantário,
as cores primárias, a luz e a sombra,
as mais variadas perspectivas do abismo de estar vivo
o bê-a-bá da bicharada , as letras, as sílabas,
as palavras abrasivas de adultos eram cruéis,
faziam dói-dói que pensávamos passar com tintura de iodo.
as contas de somar nomes feios, pimenta na língua e
castigos de orelhas de jerico e um mês sem banda desenhada,
a subtracção das quedas de dentes partidos, divisão dos sorrisos
e lágrimas a comunhão mui católica nas alegrias nas misérias
multiplicação das dores ósseas do crescimento e da melancolia
de não termos tamanho para nos ocultarmos nos esconderijos mais insuspeitos
à espera que passasse a trovoada, o papão
ou o pesadelo de um filme visto à revelia do papá e da mamã
Mas o ensinamento essencial para a vida, o único que importa reter,
e que ainda hoje tem serventia, mesmo antes de teres entrado
para a primeira classe e contraído um surto de piolhos,
extraíste da voz aflanelada de tua mãe
- Não aceites nada de estranhos.
foi quando aprendeste o medo.
trocávamos rosas e risinhos que soavam a pianinhos
giroflé flé flá defrontávamo-nos com os primeiros sintomas
da existência enfática do amor e da amizade
doenças incuráveis, mortes de lume brando:
uma mão ajudava-nos a subir no escorrega,
outra a subir ao baloiço, outra ainda
a empoleirar-nos para chegarmos à torneira
do chafariz que jorrava a vida em estado líquido
fresco reanimador , um pé desbaratava o penalty decisivo,
soubemos cedo apreciar o sabor da derrota
outro pé pisava a casa de um caracol alegórico,
soubemos ainda mais cedo acarinhar a pancada
de um verso surdo e seco,
corríamos afogueados esquivos da bola
o mata era o nosso jogo predilecto
gozávamos com pedras e cuspo os amoladores,
os engraxadores e os cauteleiros mancos
precoces suspeitámos de quem nos limpava, vendia,
e consertava a sorte, como se não soubéssemos por nós fazê-lo
vieram as lições do infantário,
as cores primárias, a luz e a sombra,
as mais variadas perspectivas do abismo de estar vivo
o bê-a-bá da bicharada , as letras, as sílabas,
as palavras abrasivas de adultos eram cruéis,
faziam dói-dói que pensávamos passar com tintura de iodo.
as contas de somar nomes feios, pimenta na língua e
castigos de orelhas de jerico e um mês sem banda desenhada,
a subtracção das quedas de dentes partidos, divisão dos sorrisos
e lágrimas a comunhão mui católica nas alegrias nas misérias
multiplicação das dores ósseas do crescimento e da melancolia
de não termos tamanho para nos ocultarmos nos esconderijos mais insuspeitos
à espera que passasse a trovoada, o papão
ou o pesadelo de um filme visto à revelia do papá e da mamã
Mas o ensinamento essencial para a vida, o único que importa reter,
e que ainda hoje tem serventia, mesmo antes de teres entrado
para a primeira classe e contraído um surto de piolhos,
extraíste da voz aflanelada de tua mãe
- Não aceites nada de estranhos.
foi quando aprendeste o medo.
Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço
Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada
Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto
Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão
Este verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade
Este verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água
Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem
Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua
Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz
Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar
Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus
Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.
Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.
Ulla Hahn
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço
Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada
Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto
Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão
Este verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade
Este verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água
Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem
Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua
Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz
Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar
Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus
Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.
Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.
Ulla Hahn
Moralia & Bellica
para o Simão
Criança, deves figurar a tua vida como uma espada,
depois indagar-te com que fito te brandes
Se o mundo é um corpo defendível
Se as suas carnes merecem a etimologia das lâminas
Se ao te desbravares estás a abrir-te de passos hílares
Se a golpeares sadicamente do trilho sua impeditiva selvagem densidade de plantas
para o Simão
Criança, deves figurar a tua vida como uma espada,
depois indagar-te com que fito te brandes
Se o mundo é um corpo defendível
Se as suas carnes merecem a etimologia das lâminas
Se ao te desbravares estás a abrir-te de passos hílares
Se a golpeares sadicamente do trilho sua impeditiva selvagem densidade de plantas
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