27 de agosto de 2018

Campo Grande

no grande horto das crianças celestes giroflé giroflá
trocávamos rosas e risinhos que soavam a pianinhos
giroflé flé flá defrontávamo-nos com os primeiros sintomas
da existência enfática do amor e da amizade
doenças incuráveis, mortes de lume brando:

uma mão ajudava-nos a subir no escorrega,
outra a subir ao baloiço, outra ainda
a empoleirar-nos para chegarmos à torneira
do chafariz que jorrava a vida em estado líquido
fresco reanimador , um pé desbaratava o penalty decisivo,
soubemos cedo apreciar o sabor da derrota
outro pé pisava a casa de um caracol alegórico,
soubemos ainda mais cedo acarinhar a pancada
de um verso surdo e seco,
corríamos afogueados esquivos da bola
o mata era o nosso jogo predilecto
gozávamos com pedras e cuspo os amoladores,
os engraxadores e os cauteleiros mancos
precoces suspeitámos de quem nos limpava, vendia,
e consertava
a sorte, como se não soubéssemos por nós fazê-lo

vieram as lições do infantário,
as cores primárias, a luz e a sombra,
as mais variadas perspectivas do abismo de estar vivo
o bê-a-bá da bicharada , as letras, as sílabas,
as palavras abrasivas de adultos eram cruéis,
faziam dói-dói que pensávamos passar com tintura de iodo.
as contas de somar nomes feios, pimenta na língua e
castigos de orelhas de jerico e um mês sem banda desenhada,
a subtracção das quedas de dentes partidos, divisão dos sorrisos
e lágrimas a comunhão mui católica nas alegrias nas misérias
multiplicação das dores ósseas do crescimento e da melancolia
de não termos tamanho para nos ocultarmos nos esconderijos mais insuspeitos
à espera que passasse a trovoada, o papão
ou o pesadelo de um filme visto à revelia do papá e da mamã

Mas o ensinamento essencial para a vida, o único que importa reter,
e que ainda hoje tem serventia, mesmo antes de teres entrado
para a primeira classe e contraído um surto de piolhos,
extraíste da voz aflanelada de tua mãe

- Não aceites nada de estranhos.

foi quando aprendeste o medo.

Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão

Este verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade

Este verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar

Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

Ulla Hahn
Moralia & Bellica

para o Simão

Criança, deves figurar a tua vida como uma espada,
depois indagar-te com que fito te brandes

Se o mundo é um corpo defendível
Se as suas carnes merecem a etimologia das lâminas

Se ao te desbravares estás a abrir-te de passos hílares
Se a golpeares sadicamente do trilho                                          sua impeditiva selvagem densidade de plantas