24 de agosto de 2018

Reino Nada

O cosmos é tecido de 90% de átomos de hidrogénio que por sua vez são compostos por 9, 99999999 de espaço vazio. O que a noite oferece não são sinais, amigo, como o Nilo iluminado do ponto de vista da ISS. Escrevemos nosso choro contido de vestígios neste corpo de esquisso, o rasto niquelado do que ainda se não calou ou está quase a perder a língua. A sombra de um voo, o clarão do relâmpago, um pingo de chuva, o fumo de uma lareira, um par de pisadas de lama, a dança sonâmbula das árvores, um riso cada vez mais encolhido, o calor de um acalanto, na lonjura um derradeiro acorde de música, a mais impactante metáfora ou alegoria, estes ou quaisquer outros versos, anotações em folhas de viagem de um mundo essencialmente invisível.

27 de julho de 2018

Placa de Petri

A poesia é um louco laboratório, e eu dispo a bata para não chorar, mas não desesperes se só tens por companhia o silêncio do desassossego e as imagens e temas do conhecimento que só pode ser estudado e apreciado em solidão. Coloca-o numa placa de petri, colando o olho à lente do que testemunhas seguindo o alvoroçado cruzar e descruzar de movimentações autónomas, caóticas e arrumadas das microcriaturas : são as tuas memórias, revezes e vicissitudes, os triunfos, os desgostos de amor, os êxitos profissionais, as ocasiões em que viste o mar escuro ou o céu limpo, o vento dobrando a vontade de uma azinheira, o rio sorvido pela necessidade dos salgueiros, os ciprestes que contaste um a um na sua diferença e unicidade, pelo vidro traseiro do carro a cem à hora, à medida que mirravam na distância , a multiplicidade de pares de pardais esquivos voltejando em volta do musical equilíbrio de elementos de uma manhã sobre um pátio japonês, aquele drama alemão ou russo que reviste vezes sem memória, plano fixo ou lento traveling gravado com o tição da técnica e do dom, uma lua vermelha ou um eclipse, um cão às voltas com a cauda, a cauda salpicando a areia, chovendo sobre a criança, a criança que foste e tu juntos no balancé do tempo e da lembrança, a pequenina nuvem errante de Wordsworth, imagem poética que se fixou, como tantas outras, no céu da ideia, o triz em que escapaste da morte e da vida ou que O encontraste e Dele te tornaste desavindo, não mais deixando que sua mão se fechasse sobre a Tua. Chora agora. De tantos quase invisíveis nadas se urde o entrecho de uma vida interior, a tua pretensa existência comezinha. Chora agora, uma lágrima, como um homem, não desponta pelas razões certas ou erradas. Tens pérolas no rosto. Deixa os olhos transbordar até a chuva do futuro tornar a encher o fundo do poço. De rosto limpo e cintilante pelo renovo, levanta-te como mosto dos mortos das lágrimas anteriores. A vida é uma ordem. Um milagre. Todo o ser é de excepção. Cumpre-a. Fá-lo porque ferves da urgência, não porque crês nas alucinadas arengas de poetas medíocres muitíssimo confiantes de suas sentenças.

20 de julho de 2018

Porquê os Clássicos

São aos milhares fantasmáticos os olhos de lémure
bichanando observações e comentários
de almas penadas sobre a curva
sombria dos ombros diante de amarelecidas linhas,
súplicas do tempo antigo,
Com seu ondeante ouro de moeda desejando
o repouso e inocência dos mortos, fundo de velha fonte
ruinosa e olvidadiça.
Os mestres não expiam. Olham
Sem piscar nem intervir,
num silêncio anterior estudam,
mas sobretudo zombam
das urgências e aflições
da desaustinada e pressurosa juventude,
inflamada em desejo e dúvida,
que se diz perdida e à procura
de secreta estrada
soterrada na verdade e sabedoria
dos livros, como se houvesse algo
mais que um par de olhos ignaros
demorados na imagem de uma pedra
de gelo derretendo em água :
palavras na página :
insones madrugadas
e madrugadas dissolvidas.   

13 de julho de 2018

Prolegómenos da Desmesura

Foi em mil novecentos e troca o passo
mitologia difusa em que tinhamos ambos cara de bebé
mas queríamos fazê-lo como gente
grande 

O beijo mas não um qualquer

Quando ao crepúsculo de um Verão adolescente 

duas vontades sem idade foram tanto 
como um conto de Rohmer 
que dentes se entrechocaram onomatopaicos 
abrindo nos lábios e língua ardorosos golpes franceses

Un mot et tout est sauvé
Un mot et tout est perdu

Ao som do L'Hôtel Particulier 
de Gainsbourg

Pois por esses filetes vermelhos
anelo prazer sofrimento prazer
me prendi nos prendemos 

aos versos à vida 
escorrentes

9 de julho de 2018

Poema

Conto :
os antigos diziam :
se um pirilampo
for apanhado,sua alegria funde-se.
os contemporâneos defendem: o insecto não morre-
é como o sol,apenas se põe.
(...)
Desculpa,esqueci-me onde ia:
Fiquei sem luz.
É noite.

5 de julho de 2018

Criado Mudo

É em silêncio indiferente mas rigoroso,
que me administra os venenos dos mais
copiosos e fumegantes festins, enquanto a sombra crespa
de um cão que passou há dois ou três capítulos a existir,
me rói a agitação ledora das canelas,
sem que me possa soltar ou mexer
(paralisia dos sonhos),
peço em namoro o diabo das ideias.
Em horas de míngua das tuas mãos miúdas
tocadas pelas minhas, entrego todos os
nervos e fibras à gula de mortos e antigos,
livros e livros, pão e vinho,
a idade é um canto difícil iluminado por um
candeeiro mortiço.
Porém, o tempo não se deixa enganar com postiços paraísos;
a literatura no fundo do estômago;
cresce a imagem de cãs caídas,
sobre o tapete do ilota dos delírios.
Rei cada vez mais redondo,
de amor vazio como Erisícton,
vi o desenho fechado,
de meu destino, espero ao menos
que meu corpo e ossos,
sugado por fim o tutano do silêncio,
saibam bem à minha própria
sôfrega saliva.