27 de junho de 2018

Autobiografia com Vanitas

Ante a atenção de porteiro do pó                      solas de sombra denunciam a passagem        do homem invisível

23 de junho de 2018

Memento Vivere

Trinta e dois ou quarenta anos são vento,
estimado espectro de muitas noites e gritos.
A terra persiste megera desde que passou teu comboio, Attila,
ou mãe estéril, como também disseste, a precisar de um filho.
Ambos de berço proletário, sabemos que todo o poema é um canto de trabalho.
E só o suor nos livra. Levantamo-nos ao amanhecer como os padeiros, para
mais tarde regressarmos por uma rua longa vazia quando as estrelas
já sonham,  surpreendendo a lua desatenta da vigia, na companhia de
um pequeno gato de um negro arisco como as sombras.
Acendemos a luz, vamos buscar o pouco leite que há
e a malga para o nosso amigo, dividindo pelos três
uma lata de sardinhas. Cansado, nosso coração é leve, limpo.
Em silêncio, sorrimos, dois copos de vidro retinem,
brindam à desdita, esfumas-te em frio.

18 de junho de 2018

Vera Icon

Evoco um episódio do Holocausto
citado visualmente pelo iconoclasta Banksy.
Como o que sublinhou os lábios desses prisioneiros,
quando a Cruz Vermelha Britânica chegou ao campo
com um carregamento de baton róseo
reluzindo como guloseimas dulcíssimas, alegrando os olhos e rostos sujos,
moribundos e famintos, não mais cinzentos fantasmas
marasmados do horror e ódio, à semelhança agora da imagem exótica,
vinheta de BD grotesca, inverossímil, mas também suave e tocante
de uma tribo ameríndia assaz antiga, de pijama às riscas, em contacto
com os primeiros sinais da civilização
do explorador que acabou de a descobrir, só gosto
da maquilhagem que nos tenta restituir a humanidade,
não daquela que no-la tira e dissimula com uma beleza corruptora nossa real índole.
Assim devem ser nossas palavras: de mestres a discípulos, pronunciadas e inscritas, da mais concreta à alegoria.
A propósito, estás linda.

15 de junho de 2018

Passagio Profumato

Bem sei, meu bem, tudo passa,
o Amor é um espelho que foge,
E così dimenticammo le rose,
No-lo dizemos como disse Dino à sua Sibila,
Porém, porque o sabes, crê-me na profecia,
Brevemente seremos uma nuvem inteira 
lenta por sobre os portões do Jardim
Antes de a Lua mudar e o Sol subir e volver a decair,
vida e morte retomarem a dança mascarada 
do seu voraz rodopio.

12 de junho de 2018

Ubi Caritas et Amor

Bendiz os homens, seus desígnios e abismos, 
mas ensina à criança que treinas para ser homem, 
o que aprendeste até então: 
como num recorte circular de meninos 
de papel solidário, o elo mais frágil 
é precisamente aquele em que todos 
dão vigorosamente as mãos.
" She was learning, quite, late, what many people around her appeared to have known since childhood—that life can be perfectly satisfying without major achievements. It could be brimful of occupations which did not weary you to the bone." ( Alice Munro, Too Much Happiness)

11 de junho de 2018

Depois de Auschwitz

Já quase franqueados para fora os portões férreos do horror histórico, creio haver ouvido com franca nitidez o que ninguém disse, demorando as solas das botas na lama fria e escura dos mortos, ao trocar a palavra Shoah pela palavra Shalom, logo relampejando no chumbo do céu mental um voo de asas nervosas em símbolo.
" Perdoa-os, pois eles sabiam o que faziam."