10 de junho de 2018

Amor Ibahí

O meu coração é árabe
O meu desejo é sensual
mas o meu gesto é casto
Já antes de te conhecer
Ordenei que uma força de mil homens erguesse
para ti um palácio
à hora do ocaso ou noite alta
encostada à varanda de olhos sonhadores
no sol ou nas estrelas
para te contemplar desde o jardim
(calando a vontade
de ver assomar um sorriso sugestivo
para poder subir) 

7 de junho de 2018

Imago Mundi

"No princípio é a Imagem.
Adão, porque viu os animais,
recortou-os do seu próprio escuro silêncio,
para somente depois nomear esses contornos,
consagrando-lhes o privilégio
da forma e do pormenor."

Razoo, enquanto me falta o Verbo,
ao mirar-te de pernas desnudas e cabelo amarrado,
com uma das minhas camisas, em que incide a luz da clarabóia,                               
no desvão da memória, lá onde as deidades se encontram                               
com um homem.


6 de junho de 2018

Um café na Europa

Tenho sete selos dispostos sobre o tampo vítreo limpo,
como Walter Benjamin, segundo Arendt,  "um homem
que, com a precisão de um sonâmbulo, caminhou em direcção ao infortúnio",
ouço cascos furiosos de cavalos, o quarto selo incita : vem e vê.
E a esplanada explode de dentro para a calçada,
os ocupantes saem cuspidos dos janelões e atingem
passantes incautos ao som de um trap rap francês disparado
do coração do estabelecimento, o que voa sobrevoa-me
sibilante à tangente o chapéu do século XIX.
Pouca importância terá que se trate de mais um atentado
terrorista perpetrado pelos pobres e opressos,
sem prato nem casa, ou do Apocalipse atacando este pretexto
de projecto burguês com acesso à mais alta tecnologia.
Ribombantes engenhos e ruidosas rajadas.
Desde sempre, a Europa é uma ruína.
O anjo cai uma e outra vez de costas.

Weltliteratur

Quis provar um pouco de kultur, era valquíria a minha alemã,
bárbara um pouco nos modos, robusta e inquebrantável
como os livros dos compatriotas,
disputava qualquer prémio que fosse
atribuído no Okterbest,
grande melómana,era raro ler,
espantava-se por eu conhecer Heinrich Heine,
ao passo que não fiquei ofendido ou ralado
por ignorar Camões e sua Lírica , cozinhava bem
enquanto eu a Mefistófeles alisava o pêlo,
mas aparava as unhas,não obstante, devia ter estado mais atento aos sinais,
quando me tentou cegar um olho, antes de me furar a carne,
andava eu resvalado sob o encanto da abertura da Tannhäuser,
numa aldeola perdida no meio do nada
da nossa Beira Interior, com uma gigantesca cruz a néon azul
policiando a paisagem.
Foi-se embora, mas saí desapontado, chorei
menos do que suei, empurrou-me da montanha
mágica, mas não me deixou a emborcar litrosas no Inferno
ou um cadaveroso estendido de frio e fome numa floresta feérica
de um verso de Trakl. Seu corpo nu entregou-se
ao turismo de chinela, como é próprio do verão.
Seja como for, ando a aprender a língua
do desgosto rilkeano :
já conheço a definição de hintergangen.

29 de maio de 2018

Gai Saber

Como a flor envelheço,
Sem envilecer,
Numa distracção de céu
e silêncio.

Da vaidade

Por entre a folhagem do frio, no instante do sono, também o pavão procura esconder o rosto.