29 de maio de 2018

Gai Saber

Como a flor envelheço,
Sem envilecer,
Numa distracção de céu
e silêncio.

Da vaidade

Por entre a folhagem do frio, no instante do sono, também o pavão procura esconder o rosto.

24 de maio de 2018

Verão sobre uma fotografia de Rinko Kawauchi

Disponho no prato azul-céu
uma fatia de melancia, fruto que recebeu o favor do sol
Com a pinça do silêncio,
Entre polegar e indicador,
a pouco e pouco,
uma a uma,
puxo suas sementes,
Como se removesse
lágrimas de um rosto.
O arco da minha boca                                  iguala o arco da sua forma.                                E como como
se sorrisse

21 de maio de 2018

NEKYIA

Ergue-se o fumo do cigarro ideado enquanto cai a noite. Eis-nos conversando uma vez mais com os mortos, lavrando o verso em idade madura, recuperando a relha de um poema de idioma antigo, procurando conselhos e direcções como os de Tirésias pelo herói, não sabendo para onde ir, quem ser, uma mão ensombrando a outra, confundidas, ambas encobrindo, acoitando a vergonha e inépcia do rosto, sinédoque do corpo, museu da traição, mas nós estamos vivos, e não nos demoramos muito nas moradas inferiores, embora sem estrela nem vento, fugindo para o futuro, não desarmamos na aprendizagem de morrer, como fez questão Sócrates com a sua ária para flauta, enquanto lhe estavam a preparar a cicuta.

27 de abril de 2018

Quasar

Desengana-te, aspirante a astronauta, não há qualquer fim na literatura, essa arte e indústria sem préstimo nem prémio. O que pensas serem estrelas resplendendo são na verdade um diadema de numerosos satélites desactivados sem vivalma ao comando, como qualquer esforço tecnológico, frustrantes tentativas de afrontar os divinos e usurpar o seu trono, vislumbres de sísifo empurrando a pedra desesperada da solidão irremediável e universal do homem para o silêncio profundo das trevas siderais, estreitando seus espinhos sobre a consciência do planeta, a condição da espécie. Servimo-nos de um poema, como nos servimos desse lugar, como nos servimos dos oceanos, como nos servimos de todas as coisas, como nos servimos uns dos outros. Distante depósito de lixo, cósmico, mas lixo, impossível de reciclar pela ecologia do espírito mais alumiante sobre o destino da raça, a herança dos filhos, a última palavra do futuro que mão funesta lavrará em testamento, o prego derradeiro no caixão do projecto, segundo Pascal, o mais sangrento.

23 de abril de 2018

Nigredo

Entras depressa na tua noite escura. Fechas a porta sobre o terramoto surdo dos dias em que nada acontece, os dias que não aconteceram, como a imagem sem som de um corpo quieto conduzido pelo tapete rolante do seu sossego e inércia, entregando-se ao labor orante ao deus dúbio do silêncio da escrita, os gestos secos e precisos de um ofício, em ciclos regulares recortando e detalhando um pequeno espaço vazio em que te empenhas com brio a bloquear todos os ruídos que te sugiram outras vidas para lá das paredes e janelas de um quarto fechado que se torna enorme na sua abstração de conceito de quarto, olhando a página branca de tua memória e imaginário como Galileu remexeria no negro do espaço sideral em busca da existência ou movimento do astro que fundamentaria o aparecimento de uma nova teoria que explicaria de modo definitivo a existência e o comportamento do universo e negaria todas as tuas mortes das noites anteriores( das quais te levantas todas as manhãs às oito), a própria ideia e história da morte, mas és vencido pela exaustão que o esforço te exige mesmo antes de começares. No entanto, e isto é uma regra que se aplica a todos, na mesma situação ou que gostariam de estar, não dormirás um sono sem sonhos. Como se descobrem variações de detalhes na circularidade da rotina, à imagem do planeta, és uma esfera imperfeita, podes sempre tornar a tentar, renovar o fracasso na noite seguinte.

Anjo Pessoal


Da criança ladina ou do rapaz estranho, nem a sombra, o tempo, com a mais focada indiferença, sem se condoer com peripécias e paixões, nem suar perante e durante a tarefa, trabalha meu rosto, martelo, cinzel, escopro, a vida é breve, mas é lento seu sopro, desfigura, configura e transfigura um desalinho e arrumo de linhas e traços ao ritmo de um dolente dedilhado de guitarra, para que enfim no instante exterminador diga, antes que no corpo se apague a luz da memória de si próprio, nuvem no espelho, a identidade, que na pedra viu um homem.

3 de abril de 2018

MYSTERIUM

Scriabin, o visionário russo de natureza inquieta, leitor de Schopenhauer e Nietzsche, desejou que sua obra-prima trouxesse o Fim dos Tempos, o Dia do Juízo e Castigo, era sua grande empresa, erguer-se até recobrir com a sombra monstruosa das mãos todas as nesgas e escaninhos das alturas e abismos, devorador dos mundos, profundamente enlevado, como que dominado de um transe religioso,  da inteligência veemente do delírio, deixando soltar os sons universais que seduziriam tudo quanto há, com a sua loucura cataclísmica de sonho febril. Morreu ao longo da tentativa, por causa de uma borbulha mesquinha. Porém, se hoje pudéssemos ouvir a sinfonia de todos os encerramentos, retumbando nos créditos finais do filme cósmico, esta, quase apostaria, nunca soaria tanto a um princípio, como na noite de Natal em que nasceu ou na estrofe que abre as Metamorfoses, de Ovídio, uma massa densa e escura, sem forma e sem nome, reunindo numa só coisa todas, em discórdia e conflito entre si, até o deus compositor apartar terra e céu, e os nomear, de seguida em rápida sucessão arrumando e baptizando tudo o resto . A música, como todas as expressões da criação, aprendeu da morte a ironia, e escarnece, como as palavras, do poeta, de quem a instrumentaliza.

4 de janeiro de 2018

Bioacústica


Soube há pouco que as árvores também gritam de dor. Um grito tímido que se confunde com o rumorejar quase surdo da resina. Como tu, ignoro como tantos outros segredos, a vida secreta das plantas. Depois, esse dado associou-se livremente a outro esclarecendo-me que os ecossistemas se encontram cada vez mais calados, como é óbvio, devido à forma como os homens influenciam e agem sobre a música do meio que invadem e colonizam. Os ameríndios norte-americanos não tinham uma palavra para Natureza, pois nunca se divorciaram do mundo das canções da terra, coro de espíritos. Creio que nunca abracei uma árvore, tão-pouco segredei algo absurdo ao bonsai doente do escritório ou segurei entre a indiferença dos dedos as petúnias da cozinha, mas gostaria que o fogo das minhas imagens pudesse combater os archotes bárbaros do progresso, que por uma vez não cantasse o silêncio de um fim que os primeiros versos deste poema qualquer poema enunciam, a morte, sempre a morte imiscuindo-se nas folhas caídas do que não dizemos, com as suas cinzas.

Conhece-te a ti mesmo


Esta frase pode ler-se inscrita na entrada do Templo de Delfos, na Grécia, mas devemos mesmo acreditar nela como os antigos outrora acreditaram na existência dos deuses? Certo é, dizem-nos os estudantes dos astros, o universo inobservável ser muito mais vasto que aquele que nossos olhos poderão algum dia apreender. Mesmo este planeta detém mistérios que nem a mais iluminada e velha existência poderá em algum momento claro desvendar. Muito bem, deixemos o telescópio, troquemos a escala do olhar e partamos do ínfimo. O que sabes sobre a flor?, perguntar-te-ão os naturalistas. Ou troquemos umas ideias sobre o silêncio, exigirão os místicos. Tens alguma ideia sobre o mundo das ideias, troçarão os cientistas da mente. Já os políticos falarão sem que deles saia nenhum som. Os poetas evidentemente calar-se-ão por convicção. E por aí fora. Escrever é um longo estágio de ignorância. Quanto menos souberes, melhor

FINISTERRA



No fundo sempre soube da existência do lugar, mitológico, mítico, onírico, somente ignorava que se apresentaria à minha franzida contemplação em forma de uma pessoa que na verdade é tanto acto fisiológico como sereno sacramento, besta do sagrado. O lugar é este, onde toda a linguagem, e, por conseguinte, todos os poemas, vêm morrer, mas em sossego, como se se houvessem cumprido, cumprindo, isto é, reconciliando o mundo da acção e o mundo da ideia = a mão é o espírito, poderia escrever-se. Mas dizia eu, onde a linguagem finda, o silêncio principia. Não é esse o sonho utópico dos poetas? O semovente e fugidio alvo sempre sob a sua mira? O poema que os faça depor a caneta e finalmente dormir? O poema que todos os outros elida? O verso apocalíptico? O fogo que extinguirá a sua chama no meio do deserto do real? Onde a linguagem já não é - Eis uma definição do Amor. Neste espaço até o ar se emprenha de concretude, a concretude das certezas, isto é, as respostas que alijam do homem o desespero de nunca saber nada através do estudo e serviço da palavra. Chão que não é território nem mapa. Fim da terra, onde para lá do extremo da falésia mais protuberante, céu e mar são inconsutéis, como partes diferentes-iguais do mesmo vestido de noite que apazigua e faz sonhar a consciência. Como eu e tu, quando os nossos olhares parecem confundir-se, sempre à mesma altura na linha do horizonte do que fixam. É bom que se confundam, porque quero eu lá empiricamente saber se o mundo é mesmo redondo, nem poderia fazê-lo, se o desejasse, agora que, como Édipo, furei os olhos, rei satisfeito de toda a sua ignorância.

15 de novembro de 2017

Desertos

Tal como o oficial de Dino Buzzati
trato o amor como uma ameaça invasora
que nunca chega
Ele também
Cada um é como um animal distinto
esperando na luz ou nas sombras
cientes das consequências do encontro

Abrindo ostras

Abrir a palavra,não é 
como abrir um livro a janela

Ante a mulher
desejada
Temos de ser decididos

Quase me mato

Sabe a mar o risco

6 de novembro de 2017

MORTE AO PIANO

A maternidade onde a luz o reivindicou para si mesma sumiu, 
no seu lugar, agora, outro edifício lança distinta sombra, tão estranho 
como um dente d'ouro em branco sorriso e hálito são, pese embora tudo se apresente 
estranhamente familiar, como a escola e o caminho para casa, 
do outro lado da estrada. 
O silêncio ainda negoceia presença com o sereno meneio das árvores e os cânticos dos pássaros, 
os habitantes e os passantes mais casuais parecem conservar ainda, 
nos gestos, nas palavras, a mesma lenta velocidade que caracterizava e convertia o bairro num lugar 
tão tranquilo e aprazível, sem, pasme-se, as aparições e a ameaça da polícia: podia-se morrer aqui, mas não foi obviamente o lugar onde me fiz homem. 
Ninguém sofre mirando uma pintura naïf. Ninguém cresce onde é feliz. 
Depois vieram os gritos, os punhos, os desamores, as decepções, os amuos, etc e os mais vários estados do ânimo, tudo aquilo que lastimo e me justifica aqui , a bíblia da minha biografia, a letra que mata e o espírito que a vivifica, 
a vontade de resgatar o mundo de si próprio ou condená-lo a um contínuo Apocalipse, as lágrimas nas coisas, 
as mais escusadas metáforas, citações e envios, os tropos, a auto-comiseração, a linguagem 
com o rei nu, enfim, o anjo de minha história com as penas das asas próprias saindo da boca, 
belo e ridículo em triunfante auto-extermínio, tudo aquilo que vai perfazendo 
uma muito idiossincrática urgência de melancolia.

17 de outubro de 2017

Exegese

Passei horas a examinar a noção
de um poema ancestral num dos hotéis
litorais do meu silêncio, à luz de uma lâmpada económica
iluminando-me o rosto pela metade amarrado
(como um cavalo velho açoitado pelo frio)
à praia chuvosa por detrás dos vidros anoitecidos,
para enfim descobrir
que o sentido mora tatuado
no exterior das pálpebras: nenhum espelho o revela;
quando as fecho,
perde-se nos domínios cegos do sonho,
regressando porém eterno e
transitório como a dolorosa
humidade da manhã, algo havendo de religioso
na experiência da evidência, quando sucumbimos à
fadiga do esforço de entender e
limpamos da fronte com a palma abstracta bem aberta,
no brusco gesto da descrença,
um suor febril,
quase místico,
iniciático,
nós que outrora deixámos 

que a mão de Deus se fechasse 
sobre a nossa e que nos fechamos agora 
sobre nós mesmos,pedras entre as pedras, 
austeras ausências, apenas por fora quentes e frios.

4 de outubro de 2017

Fala Nicómaco

É conciso e claro meu coração, pai

nenhuma de minhas palavras
transporta uma carga árdua
ou se emaranha no fio do enigma

as mãos comem o pão
não um símbolo                                           

real e inapetente
é esta luz que as ilumina
irradiando pelo espaço da cozinha                         

seu silêncio não é um copo
que sobre o pó claro da mesa se move
sozinho

Perdoo aos poetas a sua simplicidade
construída

25 de agosto de 2017

MINIMA MORALIA

Quando ainda não souberes por que paira sobre tuas pétalas e corola, ameaçadora a abelha da experiência, querido, sentar-te-ei na flor da tua idade e ensinar-te-ei o medo, a saudade, a desilusão, a mentira, o rancor, o desalento, como apreciar e rir dessas piadas irónicas, experimentarás também o prurido doloroso de um amigo ou amante que não te responde, de como um poema é um abrigo das más estações, grandes robustas folhas de bananeira quando te parece que está sempre frio e a chover, e a música não é mais do que o vento que sacode a água que nelas se acumulou. Cuidarei igualmente para que aprendas cedo, e quanto mais cedo melhor, a munir-te das melhores armas, as mais duradouras e eficazes - a vida é uma longa espada e combatê-la, para que saibas, é exercício escusado e inglório, mas fá-lo-ás, porque crerás que a vontade que dominas e comandas é a do sonho - serás a criança de Whitman que perguntou "O que é a erva?", esperando que esta lhe retruca "O que é a criança?". Concluirás depois que Deus poderá saber karaté, mas o Diabo esconde o gume dos traidores entre o cinturão e o quimono. Haverá até um momento, como Hölderlin, que não entenderás as palavras dos homens, e procurarás a salvação que te foge no sexo desenfreado de risco com corpos nus vários, nos deuses dos livros, nas drogas. Não obstante, não te angusties, sorri, porque entre as horas violentas, haverá intervalos de cansaço e alegria( saberás dosear o riso e o tino), com sorte, de amor, com mais sorte ainda, amor próprio. Amarás as mulheres, ainda que elas queiram não raro que rasgues os pulsos com os caninos. Darás o devido valor à tua mãe, segundos antes de fugir de casa e segundos depois de lhe teres teres dito que não pediste para vir ao mundo e a odeias até ao infinito. E resumiremos a matéria dada quando o sol subir, dia após dia, com entusiasmo, rigor e disciplina. Para quando chegares enfim aos anos que agora te escrevem, conheceres o peso de um lenço lento num cais vazio acenando ao silêncio e nevoeiro, uma desesperada missiva para o horizonte e guardares na gaveta os teus tolos e esperançosos manuscritos para sempre, furiosos gatafunhos ensopados de sede de viver, letras que esborrataste com um secador, quando depois de as afogares, tentaste fazê-las regressar pristinas à tona luminosa dos vivos. Farei tudo para te tornares como eu e os demais e não quem és, querer e acto de que não obterei nem nunca quererei perdão, mas pode ser que antes de eu dar por terminados os trabalhos dessa ruína ruim, lances mão a Nietzsche e a Freud, tatues seus e outros nomes rebeldes debaixo da língua ou na fronte, construas para ti uma bela morte, declares com som e fúria na vidraça do Metro a golpe de butterfly, líder de um gangue de espíritos livres, que Deus morreu e ainda vás a tempo de matar o pai.

3 de maio de 2017

A Ritual to Read to Each Other

If you don’t know the kind of person I am
and I don’t know the kind of person you are
a pattern that others made may prevail in the world
and following the wrong god home we may miss our star.

For there is many a small betrayal in the mind,
a shrug that lets the fragile sequence break
sending with shouts the horrible errors of childhood
storming out to play through the broken dyke.

And as elephants parade holding each elephant’s tail,
but if one wanders the circus won’t find the park,
I call it cruel and maybe the root of all cruelty
to know what occurs but not recognize the fact.

And so I appeal to a voice, to something shadowy,
a remote important region in all who talk:
though we could fool each other, we should consider---
lest the parade of our mutual life get lost in the dark.

For it is important that awake people be awake,
or a breaking line may discourage them back to sleep;
the signals we give---yes or no, or maybe---
should be clear: the darkness around us is deep.” 


― William Stafford

8 de abril de 2017

UZMAL

 Meu tempo de escrita avança através de tempos de textos antigos, como o homem Maia subiria até ao cimo a inclinação deste templo - cada degrau forçando-o a um rosto baixo e a uma coluna torcida para baixo, em sinal subtil de respeito por algo maior do que o maior dos maiores algos, os pés calejados pisando cinzas sacrificiais de bibliografias passivas, outrora vivas como ele. A caminhada decorrendo e concretizando-se no mais denso e simétrico silêncio, como se os mundos de indivíduo e objecto estivessem interligados por um tronco comum, ausente quando alguém estranho e interdito à cena o tenta ver, copa e raiz na mesma árvore unindo invertidamente as dimensões várias do ser e não-ser. Acho que, ao contrário do que exortava certo poeta, não precisas de mudar a tua vida, mas sim admirá-la e amá-la, que o gesto já será um acontecimento transformador. Como disse ao filho Arsenii Tarkovsky- depois de ter visto O Espelho- O que tu fazes não são filmes-, não banalizes a unicidade do poema falando de ti próprio. Lavra na página eléctrica as mil auroras que viste nascer ou os segundos quase intérminos em que o mesmo rosto amado-amante te fitou. Aposto que não haverá uma vez gémea da outra. Honra os teus olhos.