22 de março de 2017

Lugar Luz

Esse ténue sorriso que esboças
frouxo quase sem músculo
à beira da falência dos sentidos
e da imaginação
é na verdade um reflexo
delicado de tua expressão e linguagem 
que num paradoxo astronómico 
à semelhança da morte da estrela
chega até nós num esplendor sem alma 
nem fogo, lá onde morreu, explodiu
num lugar [de só luz. 

14 de fevereiro de 2017

Quartetos da boa ignorância

Se escolheste não saber
Certo é também teu caminho
Afinal, que sábio pôde alguma vez dizer
- Eu sei que isto é isto e aquilo aquilo?

Se ignora para que lado decide o vento
Que deus urdiu o silêncio e o riso e com que fios
Quem lhe conferiu e porquê
o atributo e epíteto?

Nem mesmo a mim ofereças
como um idólatra os teus ouvidos
pois não sou ou não deveria ser
santo de lágrimas rubras de teus olhos cegos

14 de novembro de 2016

De Senectude

Envelhecer será saber rasurar o álcool da emoção, ou doseá-lo, tesourar o corpo à altura dos limites do que este almeja, justa medida, o modo mais sensato de não afrontar os deuses e sofrer a sua zombaria. Abrir o palato com o primeiro golo e ficar-se pelo primeiro ou segundo ou terceiro copos, fogueira suficiente para identificar a semi-claridade de nossos rostos na mata da memória, e relatar com apaziguada voz libações mais acesas, histórias de fantasmas- como éramos tolos ou tristes à época, por pensarmos que para merecermos o reconhecimento dos espelhos e a electricidade dos corpos, o sangue teria de levantar fervura e falarmos como se corrêssemos com uma nudez de altos berros pela noite cheia das ruas. E conquanto, de mão experimentada, em repouso no pó de capa dura de um sebo dos sortilégios, muito comedidamente, trabalhar o coração, insistir em ousar perturbar o universo, pregar-lhe uma partida, tocando-lhe à campainha e fugir antes que a outra venha à porta, para nosso espanto, nos mande entrar, como se já fôssemos da casa.

2 de novembro de 2016

Sublimação

Num dia de sol parcialmente encoberto, fotografaste nuvens justapostas ao teu rosto no retrovisor do lado direito, mas eram tuas feições que passavam até se esfumarem fiapos brancos da negra moldura, não esses trôpegos paquidermes gigantes cheios de vapor de água contida. Porém, o carro não estava em marcha, e tu, confessas, ainda estás para entender o sentido oculto da metáfora, porque vives aterrorizado pela eficácia significante da sombra do
que palpitas.

15 de setembro de 2016

Adrede


Tudo que vos fiz
de dúbio e pérfido
- silêncios solertes, 
escarninhas ausências,
enganosos gestos e
imobilidades interesseiras-
por motivos insondáveis
e ignotas recompensas
até para mim- 

Não foi sem querer.
Aceito-vos como sois.
E vossos braços,
também se alargarão?

31 de agosto de 2016

Estatuária

Perfeitamente imóvel incompreendida
salva do resto isolada defendida
uma nuvem se avista
do tabuleiro da ponte cor de tijolo
-ao fundo mais à direita o padrão dos descobrimentos.
Pai, parece uma estátua!
Sim, filho, já viste como é bonito o jardim todo azul?
Oh, não sejas tonto, não há jardins azuis.
Aos adultos cabe apenas a tarefa da condução pela infância.
No rosto do pai ser criança era algo tarde,
o céu alaranjara sobre os sonhos do infante.
Restava o pai em movimento na escura viatura,
a tristeza parada de algo perdido sobre a resistência
inexpressiva de um rosto orgulhosamente só.

Komorebi

I

se precisas de humanizar a árvore

para além de não entender grande coisa da árvore
não saberás de ti próprio outro tanto

recolhe a língua ao mais remoto dos aposentos
cala o espelho dentro dos olhos

não vês a árvore arborizando-te,
pois não?

não lhe cosas a tua sombra,
nem lhe entrelaces teus membros.
limita-te a comentar da árvore tal como a vês
sendo

do privilégio de olhar coada a luz branca do sol
através da sua folhagem como luz branca
do sol coada através da sua folhagem

informação pura, existente, sem 
filtros, qualquer tensão e intenção

Já é muito

É tudo

II


olhar a luz leitosa do sol filtrada pela folhagem das árvores,
com o primeiro desentendimento da criança

mas para quê fazer esse caminho individual de volta?
se o regresso já existe e respira somos nós
um milagre não é milagre 
se se repetir sempre 

Apresenta-te como um novo dia se apresentando como
um novo desentendimento
que aprendes com o
heróico esforço da criança

percebendo que o mundo tem um tamanho de milagres
inversamente proporcional
ao nosso físico acabar

isso é factual                                                  mas não se justifica                                           a  vida tem sentido por ser enigma                                                   
III

porém, agora, cala-te, 
pondo todo teu ser sobre 
esse quotidiano de luz do sol filtrada pela 
folhagem das árvores

és jovem ainda, 
perfarás em breve 35, 
terás tempo para o azedume ressentido da velhice



1 de agosto de 2016

Vocabulários

Quando meu filho ouve e pronuncia nova palavra
que o deixa mais próximo de meu mundo, repetindo-a
circularmente no seu solar mantra de aprendizagem
Ah!, Oh!, Oh!, minha abismada alegria
não pode senão servir-se 
das exclamações da infância
Mas seria imprudente, em meu caso,
falar-se de um regresso, mantendo-me
eu tristemente prolixo
e, no dele,
de uma chegada,
à terra nova da idade adulta,
entendida e arrumada pelas palavras,
mais e mais difíceis, excessivas palavras.
Desconhecendo com rigor a quê,
Ambos acenamos adeus.
Como se em margens opostas que se afastam,
de uma ponte cada vez mais silenciosa,
onde nem se pode escutar o mais leve
e breve segredo da escura água

13 de julho de 2016

Parábola da Amizade

Estendo-te uma laranja que eu próprio colhi, 
mas tu rejeita-la à partida, 
travando com a mão, a meio, na articulação, o meu gesto 
de braço estendido. 

Não importa :laranja que não se come, bom sumo dará.

22 de junho de 2016

LEUCADES

Nestes tristes tempos elásticos 
como antes Safo
arrisco a queda lírica
no anacrónico embaraço
de uma morte amorosa.

17 de maio de 2016

Pietà

Por mais imersiva e impactante
que se lhes apresente a luz édita
de teus medos e sonhos
fervedouro de vespas da equívoca natureza do canto
mediante a distracção quase silente de um gesto sonolento
uma simpática senhora haverá sempre de
te fechar entre capas

10 de abril de 2016

Eli,Eli                                                                                                                                                    

Oh, perder um filho para ganhar a fome o festim
e a culpa o custo a cruz disso tudo tu-
mas afinal fora o Pai que sempre
se sentira abandonado pela criança de si próprio
sangrando intérmino e incontível
na luz da Criação a toda a volta vazia
Aqui entre nós de barba para barba
agora que aqui não está foi e já não vem
mesmo que todos nos ouçam diga-me cá
chegue-se mais perto tire os óculos ou os olhos
como é seu timbre, estilo, para olhar melhor o som destas palavras
tenho medo que até o nosso respirar constitua um plágio da sua obra
deixou-nos a todos órfãos no visco amedrontado da ideia,
sem destino e sem memória, umbigo cosido, selado
a santa senha por qualquer manobra obscura, cegos
surdos mudos e estúpidos, como quando os primeiros
ante as luzes primeiras que de repente se fizeram,
não acha isto de uma suprema injustiça?
É que quer nos enjeite ou o odiemos,
somos nados e criados do seu poema biológico,
pai contínuo e sempieterno.

Ah, concordamos, pois deixe-me
juntar a minha à sua risada infinda.

30 de março de 2016

Vera Icon

A fim de descobrir quem eras e porque te escondias,
tentei despojar-me de tuas imposturas e glamour
de galas garridas, poesia,
mas quando finalmente a máscara retirei,
outra máscara vi, ou então foi o
rosto que atrás veio, inconsútil
já com o que o traiu.

10 de fevereiro de 2016

Apostila

Se um dia de súbito te vires no cimo de tua própria idade
e te observares desde a base a enrijecer e engrossar,
não te entregues ao desânimo ou ao ressaibo, 
pois é sabido que um coração velho guarda saúde e semelhança
com as gigantescas árvores milenares,
de copa extravagante, folhagem intensa
e sombra amena e larga, essa que quantos mais corpos alberga,
mais convida para o seu cuidado, como se esticasse os seus limites
maternos numa teimosa eternidade

3 de fevereiro de 2016

Canal Odisseia

Cumpridos os formulares e robóticos afazeres, 
os vários elementos que habitavam a casa,
deram com o seu sangue suspenso,
ocupado por uma inércia sem idade,
como os tardígrados
que os olhos dos corpos que o alojava e o fez correr
outrora que nem louco, assistiram em tempos
num documentário televisivo,
dormindo um sonho milenar no grande glaciar da paciência,
até um som de novo os insuflar para a canção cósmica,
mas, até lá, concluíram cada um
à sua idiossincrática maneira,
que dessa série meio inócua
de reflexões à revelia do seu senhorio,
qualquer outrem que os olhasse,
julgá-los-ia como que mortos, reclusos
de tudo o que é frio e negativo, ou, acaso não,
acaso tivessem cometido um erro grosseiro
de auto-avaliação, e esboçassem agora
a escalada tonal, lenta, luminosa,
dos que estão de retorno.

11 de janeiro de 2016

“Things take the time they take.
Don't worry.
How many roads did St. Augustine follow before he became St. Augustine?”


― Mary Oliver

22 de dezembro de 2015

Regresso dos Heróis

Ao partir, foste mais um
cobarde,são de mais para ser herói,
No regresso : - Ninguém.
Só nos olhos e boca alheios
ratificado, temido e amado.
E eu, nesta nave louca dos
Cibernautas dos versículos.
também defraudarei meio-mundo,
esborrachando ao espelho
com os dedos nodosos
as rugas dos que
mentem a si próprios?

17 de dezembro de 2015


"É sempre cada vez mais longa a maratona,
e as insistentes palavras
parecem desistir enquanto avançam."

Armando Silva Carvalho