2 de dezembro de 2015

Nolite Timere

"Nada temais", estas as cancerosas palavras
terminais, epitáfio SMS de um homem,
divisa universal de uma espécie,
tecladas de um embarcadiço
Seamus Heaney para a sua mulher,
decerto citando esse passo bíblico ( Mateus 14:27),
como se da outra margem do nevoeiro fluvial
da nossa ignorância, a de cá fitasse,
alertando com a entoação serena dos que sabem,
de que não é da vida para a morte
que a travessia se faz.

25 de novembro de 2015

“Poetry is the language of intensity. Because we are all going to die, an expression of intensity is justified.” 
C.D. Wright

24 de novembro de 2015

Modus Operandi

Disse-me que saía todo o dia seguinte determinado em ser feliz, deixava os raios ultravioleta aquecer-lhe as lentes e a pele, afagando com agitada atenção os cabelos do seu mais novo, mas virava as costas ao lar e ao bairro já totalmente matutino, como num duelo, os seus passos observando uma regra, entrando e ligando o carro com seca decisão, como quem tem em descanso, no assento ao lado, uma arma de fogo, fria, tranquila, mas pronta para um ajuste de contas.

2 de novembro de 2015

Startalk

Não conseguia deixar de pensar no terror assumido de Alejandra Pizarnik
numa entrada dos seus Diários, ao verificar a semelhança da sua ferida de existir
com a de Artaud e como reconhecera nesses reflexos o seu, tão familiar
conforto de estrela entre estrelas numa constelação inominada
( suicida, susurrou para si)
e aí esse pânico elucidador, essa ameaça de destino
foram engolidos em seco e a chavéna quente de chá de camomila
quase lhe escorregou das mãos, engrolando suadamente as restantes
horas até novo dia abrir.

16 de setembro de 2015

Mãos dadas



Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
A vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

30 de agosto de 2015

Äidos

Calaria com o meu grito
a plenos pulmões a algazarra
da restante multidão se pudesse
escutar o turbilhão interior
de medos e carências
do outro a meu lado
porventura não lhe dando uma
voz mas a restauração do seu silêncio
livre imperturbado
outro dos direitos do homem
cuja violação deveria ser punível
nos tribunais de guerra.

27 de agosto de 2015

Selfie

Vivemos num século em que um recurso
tecnológico nos permite mirar a morte que
nos fica melhor ou como ficamos na nossa morte.
Somos os nossos próprios retratistas de Faiyum,
sempre esbeltos e jovens ( verdade, mediante algumas
batotas), estilizados, genéricos e simbólicos de pose 
não cabendo em nós mesmos de gente viva, feliz e bem sucedida.
Pertencemos à geração de habitantes terrestres
para os quais nada é um segredo ou mistério, a não ser pelos
poemas, pestes resilientes, que pulem tanto a transparência
das nossas certezas que a devolvem à sua baça e inescrutável
origem, porque nos amam, fazendo ponto de honra com o amoroso
favor de não saber de nós cada nódoa ou fulgor.

6 de agosto de 2015

Adeus, Ana.


O DECIFRADOR DE IMAGENS

O decifrador de imagens
persegue um fantasma de vestígios
como Ulisses amarrado
ao querer do conhecer

A descoberta é invenção provisória:
as vozes não se vêem
o que se vê não se ouve

A imaginação
ergue-se do arrepio da sombra
guerrilha entre parênteses
ergue-se da constante chacina
procurando outra coisa
outra causa
o outro lado do ver
ANA HATHERLY,
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003 

15 de julho de 2015

"No eres tú la culpable de que tu poema hable de lo que no es."

- Alejandra Pizarnik

10 de julho de 2015

Naxos

Como uma criança repentina surpreendendo o sossego 
idoso de um ombro  ou um insecto-miniatura estremecendo 
com o seu afogamento, a água e o vidro da jarra, 
é um disco, cuja subtileza sinfónica de vibrações
 - holy minimalism; john tavener- 
desta feita nos traz ou encaminha à imagem 
da branca luz de outrora, 
a que conciliou em seu redor deuses e homens.  

Por via sinestésica ou não, acaso também tu estranharás os estranhos 
caminhos redentores da beleza,  mas é doloroso e pétreo esse regaço, 
lacrimosa pietà,  ouvimo-la como se essa esperança nos ardesse 
de frente intensa nos olhos.

Butoh

Talvez se possa dizer
- assistido um espectáculo, lido
um poema -
que existem tantas mortes quantos
seus corpos inquilinos,
e que o modo que estes encontraram
para as exprimirem, é tão singular, inimitável e
livre - alcançando,como a escrita, e
rompendo todos os acessos tabu,
numa gestualidade de grotesca alegria-
que somos conduzidos a concluir que
existe tanto o que se vai extinguindo,
resumindo o acto de morrer,
a um exercício interpretativo,
em que todos e quaisquer dos
dançarinos, merecem admiração e empatia,
nunca havendo um mais fatigante e repetitivo.
Animalesco improviso da indisciplina,
a morte não se aprende,
muito menos se ensina. 

Dramatis Personæ

Agora, vemos como num espelho, 
de maneira confusa; 
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
- Primeira Epístola do Apóstolo S. Paulo aos Coríntios


Sim, por aquela sujidade
ou por esta impureza,
diante do poema,
com a alma ajoelhada
sobre a planura tensa,
seremos todos forçados
a esquecer para beber

Porém esperamos, quando
enconcharmos à boca o rio ,
ser da curvatura comum
da culpa, o hialino reflexo
com menos sede

8 de julho de 2015

37

BIRTHDAY CAKE
Now isn't it time
when the candles on the icing
are one two too many
too many to blow out
too many to count too many
isn't it time to give up this ritual?
although the fiery crown
fluttering on the chocolate
and through the darkened room advancing
is still the most loveliest sight
among our savage folk
that have few festivals.
But the thicket is too hot and thick
and isn't it time, isn't it time
when the fires are too many
to eat the fire and not the cake
and drip the fires from my teeth
as once I had my hot hot youth.
- Paul Goodman

2 de julho de 2015

A Mandala

Nunca foi acerca de mim.

Isto não é uma pirâmide,
tão-pouco um sarcófago,
eu não sou um faraó

não desejo a divindade
ou o fóssil vivo do prestígio,
dos deuses, busco apenas
o olho perdido de Hórus

Sim, uma metáfora para
entulhar o buraco, que por sua
vez é uma metáfora para a perda
e a falta

Canto o Sol, não Rá

Inimigos e detractores
(tem sido sempre acerca de vida,
não arte, por isso acho que se impõe a errata)
eu próprio sopro sobre 
a mandala, obrigado

E retomo a procura pela procura,
o processo de construção
Com a paciência concentrada do primeiro
grão

Que se foda o Graal

Revelatio

Não é sem dor
ou incómodo ínfimo
o estudo
minucioso e paciente
do poema

-Razão e Sandice-

Com o hoodie do temp(l)o
sob o chicote da luz
Descalço adentro 
no areal quente




 Quien no llena su mundo de fantasmasse queda solo.
- Antonio Porchia

26 de junho de 2015

“The best words not only pinpoint an idea better than any alternative but echo it in their sound and articulation, a phenomenon called phonesthetics, the feeling of sound.” 

Steven Pinker