19 de outubro de 2018

Despossessão

Sob um céu cínzeo desapegado de si próprio,
minhas mãos estarão vazias e definitivas,
vultos juntar-se-ão ao vulto do corpo
na despedida fluida para a névoa contínua.
O amor tentará tocar-me uma última vez,
ficando com as mãos perladas de um suor
translúcido e no olhar o silêncio afastado
de uma barcaça que tremula.
No entanto, meus olhos falharão o ensaio dos
acenos, não se desprenderão da luz das imagens,
crentes no brilho da dúvida dos seus regressos
sem fim.






11 de outubro de 2018

Palimpsesto

Tua morte raspa outra morte da superfície
que raspou a morte de anteontem
e tudo o que se lê é ausência.

Poema é um verbo que apaga um poema.
Não há outro verso senão silêncio, que é um homem
devorando-se a si mesmo.

Desde sempre, para sempre. 

13 de setembro de 2018

Har Nevo

A nuvem em pausa que miro assemelha-se
à nuvem sobre o tabernáculo, borrão gráfico na página vazia.
Enigma simbólico, as sinapses relampejam como céus bíblicos.
Estranha potência, ente divino; há qualquer coisa ali,
pode haver, tem de haver, senão o que fazemos com a vida?
Que promessa nos está reservada ou nos foi negada
além do monte do que vemos?
A letra mata.
Onde se encontra o espírito que a vivifica?
Faz um silêncio terrível, contínuo.
Homens parados. Tapamos os ouvidos.
Piedosos, os animais fitam-nos.
Todo o poema é impossível.

12 de setembro de 2018


All mixed up
In the heartland heat
A chemistry of commotion and style
You're thrown in
You've got to lose yourself before you find yourself
Back in exile

10 de setembro de 2018


Oh, only silence can restore
The sense of place I had before
Viver é como aprender a fazer ressaltar um seixo à beira-mar. Tarde de areal, a sombra do pai lançada pedagogicamente para a frente do teu corpo sem o trespassar ou perturbar. Atrás de si, a decaída luz do dia quase lhe desenhando asas de guarda rompendo das omoplatas quando regressa cintilando de água e cristal com a pedra eleita e certeira que te fará ir mais longe na trajectória ansiosa de distância. Os olhos brilhando ante teu esmero e foco face a cada ensaio menos falhado, pois é essa a suma e a soma: melhorar o fracasso ou reformulá-lo. Dar-lhe outro nome para não nos escorarmos no frio desse silêncio, sem que nos possamos evadir dessa essência, nossa essência, como a rosa ou o amor, um novo reflexo no espelho da morte, o medo é o medo é o medo.

1 de setembro de 2018

Senta-te, isto não é a propósito da morte. Pede um café e um pouco de ausência. Acomoda a coluna, respira fundo. A morte não vem ao caso. Mas, sabes, o luxo dos anos arrasta-se pelo lodo dos quases e dos nuncas. Tenho cada vez menos que dizer, todavia, sirvo-me do máximo de palavras para alcançar esse quase silêncio. Já só as cãs cantam, quebradiças, penosas, numa voz puxada até ao limite quando a mesma começa a emudecer. Próxima a mordaça da ameaça, a um susto de acontecer. Um dia amei, amei verdadeiramente, mas depois veio o tempo. Custoso longo exercício o das palavras projectadas em voo querendo ser ouvidas em forma de poema, talento de silêncio, rugindo do que não há como a eternidade, contido ou pressentido incêndio. A angústia regressa como um corpo após a morte do corpo. Mas não lhe chamemos alma. Os olhos abrem com a lentidão enredada de luz confusa e pássaros orvalhados. É ainda Verão no equívoco do coração. O corpo da escrita levanta-se com um peso cansado: o fracasso das estrofes, todos os mortos das noites anteriores. Diz o silêncio: o meu nome é legião. Chegam versos, novos soldados suicidam-se em eterno ciclo de combate e desaire. Entretanto, a erva cresceu como um presságio equilibrando a bamba mesa pé-de-galo ao centro da esplanada, onde, sentados, não se falou do que tu estás a pensar.

27 de agosto de 2018

Campo Grande

no grande horto das crianças celestes giroflé giroflá
trocávamos rosas e risinhos que soavam a pianinhos
giroflé flé flá defrontávamo-nos com os primeiros sintomas
da existência enfática do amor e da amizade
doenças incuráveis, mortes de lume brando:

uma mão ajudava-nos a subir no escorrega,
outra a subir ao baloiço, outra ainda
a empoleirar-nos para chegarmos à torneira
do chafariz que jorrava a vida em estado líquido
fresco reanimador , um pé desbaratava o penalty decisivo,
soubemos cedo apreciar o sabor da derrota
outro pé pisava a casa de um caracol alegórico,
soubemos ainda mais cedo acarinhar a pancada
de um verso surdo e seco,
corríamos afogueados esquivos da bola
o mata era o nosso jogo predilecto
gozávamos com pedras e cuspo os amoladores,
os engraxadores e os cauteleiros mancos
precoces suspeitámos de quem nos limpava, vendia,
e consertava
a sorte, como se não soubéssemos por nós fazê-lo

vieram as lições do infantário,
as cores primárias, a luz e a sombra,
as mais variadas perspectivas do abismo de estar vivo
o bê-a-bá da bicharada , as letras, as sílabas,
as palavras abrasivas de adultos eram cruéis,
faziam dói-dói que pensávamos passar com tintura de iodo.
as contas de somar nomes feios, pimenta na língua e
castigos de orelhas de jerico e um mês sem banda desenhada,
a subtracção das quedas de dentes partidos, divisão dos sorrisos
e lágrimas a comunhão mui católica nas alegrias nas misérias
multiplicação das dores ósseas do crescimento e da melancolia
de não termos tamanho para nos ocultarmos nos esconderijos mais insuspeitos
à espera que passasse a trovoada, o papão
ou o pesadelo de um filme visto à revelia do papá e da mamã

Mas o ensinamento essencial para a vida, o único que importa reter,
e que ainda hoje tem serventia, mesmo antes de teres entrado
para a primeira classe e contraído um surto de piolhos,
extraíste da voz aflanelada de tua mãe

- Não aceites nada de estranhos.

foi quando aprendeste o medo.

Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão

Este verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade

Este verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar

Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

Ulla Hahn