17 de outubro de 2017

Exegese

Passei horas a examinar a noção
de um poema ancestral num dos hotéis
litorais do meu silêncio, à luz de uma lâmpada económica
iluminando-me o rosto pela metade amarrado
(como um cavalo velho açoitado pelo frio)
à praia chuvosa por detrás dos vidros anoitecidos,
para enfim descobrir
que o sentido mora tatuado
no exterior das pálpebras: nenhum espelho o revela;
quando as fecho,
perde-se nos domínios cegos do sonho,
regressando porém eterno e
transitório como a dolorosa
humidade da manhã, algo havendo de religioso
na experiência da evidência, quando sucumbimos à
fadiga do esforço de entender e
limpamos da fronte com a palma abstracta bem aberta,
no brusco gesto da descrença,
um suor febril,
quase místico,
iniciático,
nós que outrora deixámos 

que a mão de Deus se fechasse 
sobre a nossa e que nos fechamos agora 
sobre nós mesmos,pedras entre as pedras, 
austeras ausências, apenas por fora quentes e frios.

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